A dança. O corpo. O brincar. Algumas relações entre dança e psicanálise.*

Pelos caminhos da psicanálise, é sempre o outro que constitui a mim mesmo como pessoa. E isso acontece nos primórdios, muito cedo, por meio das experiências do corpo.
O dançar, que fique claro isso, como movimento espontâneo e não cheio de tecnicismos, “põe em jogo” a vida em relação ao corpo. O prazer do gesto, não colonizado pela meticulosidade do treinamento ritual (aquele que nem sequer interrogamos no cotidiano).
Somos corpos reais, e não extraordinários. O corpo dói, adoece, se afeta, quer repousar e se mover na hora errada. Tem ciclos e morre. Enquanto isso os relógios ditam resultados que possam ser verificados quantitativamente…
Walter Benjamin foi um daqueles que mais bem observaram as trágicas transformações nos modos de viver, que deslocaram o lugar do corpo neste mundo. Num ambiente moderno de caminhos retificados, ambientes homogeneizados, os movimentos passam a ser também controlados. O corpo passa a ser objeto interiorizado de consumo. Entidade bidimensional, fechada. Impedem-se fluxos, contaminações e espontâneas proximidades.
Eis que numa roda de dança cria-se de repente o coletivo. Ao brincar, estando mais solto e inteiro na ação, sem autocrítica, experimento minha existência entre outros. Sem submissão. As partes do meu corpo podem ser vividas como reais, animadas pela minha presença. Estou vivo!
*Estas relações eu encontrei num texto precioso de Pedro Rodrigo Sanches, Apontamentos sobre o corpo contemporâneo, capítulo de seu trabalho ‘Encontro entre corpos: um estudo sobre o corpo por meio do diálogo entre a dança contato improvisação e a psicanálise winnicottiana’, de 2012.

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